Secção geológica em Peniche classificada como “Global Boundary Stratotype Section and Point”

 

 

A definição do GSSP do andar Toarciano no corte geológico de Ponta do Trovão (Peniche) ratificada pela IUGS (*)

Um dos temas que nos últimos decénios mais tem preocupado a comunidade geológica internacional liderada pela IUGS tem sido a definição dos GSSP ou “Golden Spike” (Global Stratotype Section and Point) dos diferentes andares da escala estratigráfica internacional. Os GSSP são definidos nos locais onde é possível melhor caracterizar o limite entre dois andares, com continuidade da sedimentação na passagem de um a outro e a possibilidade de datar com precisão cada um deles.

A IUGS tem, entre outras, uma ICS (International Commission on Stratigraphy) que criou um conjunto de subcomissões para os diferentes períodos/sistemas da escala estratigráfica. Assim, a ISJS (International Subcommission on Jurassic Stratigraphy) criou, por seu lado, grupos de trabalho constituídos por investigadores especialistas no estudo dos diferentes andares do Jurássico, para melhor assegurar uma cooperação e colaboração internacionais que assegurem um consenso generalizado de cada proposta de GSSP. Foi, assim, que surgiu, em 1984, aquando da realização do 1st Symposium on Jurassic Stratigraphy (Erlangen, Alemanha), a criação do TWG (Toarcian Working Group) a quem foi cometida a tarefa do estudo de propostas de candidatura para a definição do GSSP da base do Toarciano. A proposta escolhida é, posteriormente, confirmada pelo voto dos membros da ISJS e da ICS e, finalmente, submetida a ratificação da Comissão Executiva da IUGS.

O Toarciano, o quarto e último andar do Jurássico Inferior, situando-se entre o Pliensbaquiano (limite inferior) e o Aaleniano (limite superior), foi criado por Alcide d’Orbigny em 1849 no seu “Cours Élémentaire de Paléontologie et Géologie Stratigraphique”. O limite Pliensbaquiano/Toarciano (PLB/TOA) está datado de 182,7±0,7 MA. 

O Professor Serge Elmi (Uni. Lyon 1, França), Coordenador do TWG a partir do final dos anos oitenta, organizou, assim, um périplo de trabalhos de campo com o apoio de colegas de diferentes países onde existiam cortes geológicos passíveis de serem propostos como GSSP. Foram, deste modo, visitados, estudados e/ou reinterpretados em pormenor vários cortes geológicos, a saber:

- Anse Saint Nicolas, French Causses, Quercy e La Verpillière em França;

- Dotternhausen na Alemanha,

- La Almunia de Doña Godina em Espanha,

- os cortes clássicos da Umbria-Marche em Itália,

- Ahermoumou, Talghemt, Boulbourhal, Beni Hammad e Bou Rharraf em Marrocos,

- Mellala e Djebel Nador (Benia) na Argélia.

Em 1987, aquando da realização do 2nd Stratigraphy (Lisboa), organizado pelo Centro de Estratigrafia e Paleobiologia da UNL e o Centro de Ciências da Univ. de Coimbra, o corte de Peniche, foi visitado numa das excursões de campo (coordenação dos Professores R. B. Rocha, R. Mouterde, A. F. Soares e S. Elmi); em 1996 foi feita a apresentação deste corte como possível GSSP doToarciano (S. Elmi, R. Mouterde, R. B. Rocha e L. V. Duarte) durante uma reunião do TWG em Nuevalos (Espanha).

O estudo de todas as propostas apresentadas terminou em 2005 e durante o Peniche Field Trip Meeting organizado pelo TWG (Peniche, 2005) os cerca de 60 membros do TWG aprovaram o corte de Ponta do Trovão como sendo o mais representativo para ser definido como GSSP do Toarciano. Esta tomada de posição do TWG foi apresentada em 2006 durante o 7th System (Krakow, Polónia) e aprovada pela ISJS.

A preparação da proposta final para aprovação e ratificação pela ISJS, a ICS e a IUGS foi retardada pelo falecimento do Professor S. Elmi (2007) e pela necessidade de serem terminados trabalhos em curso, particularmente no âmbito da estratigrafia sequencial, da ciclostratigrafia e da quimiostratigrafia (essencialmente, estratigrafia isotópica). 

A partir de 2008, com a reorganização do TWG que passou a designar-se como Toarcian Task Group (TTG), e com a designação de novo Coordenador, o Professor Rogério B. Rocha, a construção da proposta formal foi redinamizada. Assim, com a colaboração entre vinte colegas de seis países (Portugal, Espanha, França, Itália, Reino Unido e Brasil), representantes de vários centros de investigação universitários e da Petrobras, foi elaborada a “Formal proposal for the Global Boundary Stratotype Section and Point (GSSP) of the Toarcian Stage, at the base of the Polymorphum Zone in the Peniche section (Portugal)” (Coordenação final de R. B. Rocha, Luis V. Duarte e Emanuela Matiolli), ratificada pela IUGS em Dezembro de 2014.

Assim, o corte de Ponta do Trovão (Peniche) passa a ser a referência a nível global para os estudos que abarquem este período de tempo, como já acontece desde há alguns anos com o corte de Murtinheira (Cabo Mondego, Figueira da Foz) que, em 1996, foi ratificado como GSSP do Bajociano; as definições destes GSSP mostram bem a importância da Bacia Lusitaniana durante o Jurássico, na confluência do Atlântico Norte e do Mar de Tétis.

A Câmara Municipal de Peniche reconheceu já a importância deste corte geológico como local importante do património geológico do País e declarou, em 2007, a Península de Peniche como “local de interesse municipal”. Uma cerimónia formal será proximamente realizada in situ (provavelmente em Julho de 2015), com a participação de responsáveis da IUGS, para assinalar formalmente a definição e localização deste “Golden Spike”.

(*) Texto elaborado por R. B. Rocha

 

  Localização do corte no Google Earth (Ponta do Trovão, círculo vermelho).